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Protesto na Nigéria, pessoas levantando os braços

UXW Day: Narrativas, bagagens e bases do Design

Texto: Paula Völker, Felipe Madureira e Henrique Souza

Edição e finalização: Felipe Madureira

Encerramos por aqui a série que abordou a UX Writing Day, a primeira conferência brasileira focada na disciplina de UX Writing no Brasil, idealizada pela Mergo.

Foram vários debates com reflexões sobre o estágio atual da área e os próximos caminhos a serem percorridos. Esse artigo em específico traz um retrato da última parte das atividades de sábado, período da tarde.

Fazendo um panorama de tudo, tivemos um artigo sobre as atividades paralelas. Outro, com um relato sobre o primeiro dia e esse aqui, com uma abordagem centrada na primeira parte das atividades de sábado, pela manhã.

E que venha a UX Writing Day 2022, a luta continua “companheires Writers”! 

Computador com a pequena frase em inglês, Do More
Vá além do texto – Foto: Carl Heyerdahl / Unsplash

Como criar um portfólio de UX Writing

Depois do almoço e do bolo de pote, bolo de rolo, cafezinho e tudo mais, veio mais uma “peso pesado” da disciplina, ela, Suzana Ribeiro, UX Lead no banQi/Via Varejo. A profissional nos trouxe informações preciosas para guardar em uma caixinha e usá-las com muita sabedoria.

Para muita gente criar um portfólio é uma pedra no sapato. Com muita delicadeza, Suzana apontou caminhos para destravar essa questão e ir com mais “munição” a uma entrevista de trabalho. Ela também apresentou um testemunho pessoal.

“Vi que só mandando currículo, eu não conseguia mostrar o que eu realmente fazia”, lembrou. E, para começar a construir o seu portfólio, a primeira coisa que ela fez foi pesquisar como designers apresentavam os seus trabalhos. Nessa busca, aconteceu a descoberta de alguns portfólios específicos de UX Writers que serviram como inspiração para Suzana elaborar o material dela.

Segundo a UX Lead no banQi/Via Varejo, há três principais motivos para a investida na construção de um portfólio:

  • O portfólio é uma prova de que você sabe – no currículo o foco é contar a sua experiência, no portfólio você a demonstra.
  • É uma ótima forma de chamar a atenção – o documento ajuda na tomada de decisão dos recrutadores e te destaca da concorrência.
  • É uma oportunidade de ir além do texto – os seus cases vão mostrar que você sabe resolver problemas de UX.

Aí já tava maravilhoso, né? Mas aí a Suzana ainda trouxe mais pontos na prática de como montar o portfólio. Os estudos de caso devem responder às seguintes perguntas:

  • Qual foi a situação ou problema?
  • Como você abordou o problema? 
  • Qual foi a solução que você criou?
  • Qual foi o impacto dessa solução no projeto como um todo?

Ou seja, não é apenas apresentar soluções de texto, mas de onde veio essa solução, como ela foi construída e o que ela trouxe de resultado. O ponto seguinte foi sobre hospedagem do portfólio. Suzana trouxe algumas sugestões: Wix, Carbonmade, Behance, Coroflot, Clippings.me e Journo Portfolio.

Para encerrar o papo, Suzana apresentou algumas dicas preciosas para ter sempre em mente na hora de estruturar o portfólio:

  • A ferramenta tanto faz, ela deve ser a última das suas preocupações
  • Conheça o seu público-alvo, pesquise as vagas que te interessam e faça uma lista das coisas que elas têm em comum.
  • Monte um roteiro, pense como deseja estruturar o seu portfólio e quais os projetos que quer destacar – Dica extra! Escolha entre 3 e 5 cases.
  • Conte uma história quando for estruturar os seus cases, mantenha uma estrutura lógica e que responda às perguntas dos recrutadores.
  • Inspire-se nos colegas, busque outros portfólios, veja como eles foram estruturados.
Foto com uma câmera do chão
Narrativas – Foto: Jakob Owens / Unsplash

UX Writing é Narrativa

“O conteúdo é a experiência do usuário”, Ginny Redish.

Quem deu o ar das graças novamente, após uma aula completa de Tom e Voz, foi a UX Manager do Nubank, Cris Luckner. Com a linguagem leve de sempre, Luckner começou a palestra contando como as narrativas são essenciais para os seres humanos. Isso porque elas ajudam a dar sentido para as coisas e nos ensinam a lidar com as emoções. E as emoções formam memórias. Ou seja, “a gente lembra do que a gente sente!”. Profundo!

Foi a partir daí que ela trouxe algumas provocações: que história o seu produto conta? Qual a narrativa dele? Como você faz as pessoas que usam o seu produto se sentirem?

Em seguida, abordou o Design Thinking de Conteúdo, explicando que a técnica é dividida em três principais etapas:

  • Entender: é o momento de fazer sentido e fazer sentir
  • Escrever: etapa voltada para a narrativa e o conteúdo
  • Experimentar: quando acontecem os experimentos

“UX é mais que interação com interface. UX é atender as necessidades das pessoas”, destacou Cris. Segundo a UX Manager do Nubank, quando falamos de UX Writing temos que ter 3 coisas em mente: 

  • Cognição: frases curtas, palavras comuns e sentimentos
  • Consistência: padronização e confiança
  • Conversa: organização lógica do texto, benefícios x funcionalidades e, por último, ação e reação

Ainda sobre a disciplina em si, ela aprofundou sobre boas práticas, como:

  • Considerar o conteúdo desde o início do projeto
  • Diminuir o esforço cognitivo 
  • Falar a língua de sua audiência
  • Aprender e iterar sempre, com pesquisa, testes e auditorias

Seguindo essa linha de raciocínio, Cris abordou ideias que estão sendo debatidas constantemente na comunidade, como “UX Writing é mais que um textinho. UX Writing é narrativa. O nosso trabalho é definir o recorte da história e qual a melhor maneira de contar essa história”. Por fim, a UX Writer falou um pouco sobre arco narrativo e trouxe alguns exemplos, como um vídeo da Loggi que utiliza muito bem essa técnica. 

Uma máquina de escrever com uma página escrito Equality
Pra quem vamos escrever? – Foto: Markus Winkler / Unsplash

Painel: Qual o futuro do UX Writing no Brasil

Para fechar essa conferência pioneira no Brasil, rolou um debate de visão barra papo de futuro com várias feras da disciplina – Renata Dantas, UX Writer na HandMade Design, Eliezer Rodrigues, UX Lead no Santander e Dante Felgueiras, UX Lead no Mercado Pago – com mediação da MC do UXW Day, Patrícia Gonçalves, UX Writer no PicPay.

A ideia da troca de reflexões foi entender como nossa área está e quais os seus possíveis caminhos – com uma abordagem sobre vários ângulos, como linguagem inclusiva, bases do Design, bagagem, etc. Patty Iniciou os trabalhos apresentando os writers e lembrando de uma pesquisa feita em 2020 pela Camila Martins, que trouxe um overview da área (campos de atuação, divisão por gênero, médias salariais, etc). Em seguida passou a bola para os convidados.

  • Legado do Copywriting dentro de UX Writing

Dante falou um pouco sobre a diversidade de registros de linguagem contidos no Brasil e sobre a perspectiva de termos uma população mais idosa no futuro, o que vai impactar certamente no nosso trabalho. Nessa linha, ele apontou que: “hoje a gente ainda tem um legado muito grande de Copywriting dentro de UX Writing. Um legado que a gente ainda pensa estar escrevendo para um público muito jovem. Temos uma linguagem ainda muito memética, muito do que está rolando nas redes. Eu sinto que, pouco a pouco, entendendo nossos usuários de uma forma mais plural e diversa, a gente vai ter que se adaptar a um denominador comum, tanto do ponto de vista de faixas etárias, como de regiões”, refletiu.

  • Neutralidade de gênero e mapa de acessibilidade

O UX Lead do Mercado Pago também comentou que há discussões sobre neutralidade de gênero no ambiente que ele atua. “Eu vejo diversos redatores de produto se aproximando dessa linguagem e buscando formas de escrever de uma maneira inclusiva, tirando as marcações de gênero, textos em que as pessoas se sintam refletidas”, contou.

Eliezer, por sua vez, destacou iniciativas no Santander como o mapa de acessibilidade. “É um mapeamento de toda tela, com parte visual e textual, para que a gente traduza, de fato, como a gente quer que o leitor leia. A gente faz agrupamento, simplificação da linguagem. E tem esse cuidado com o door, na entrega, de ter esse refinamento de acessibilidade. E um cuidado também com a terminologia financeira, de seguros e tudo mais”, disse.

  • Complexidade, aquisição e conversão

Eliezer comentou também sobre a complexidade das decisões internas do banco, referentes à linguagem: “É muito complexo, porque não dá só para eu, Eliezer, pedir pra mudar o nome de um produto, sendo que o mercado como um todo comercializa esse produto”, explicou, adicionando que uma tática utilizada é, em vez de trocar o nome de um produto, explicar ou parafrasear algumas informações. 

De acordo com o UX Lead do Santander, também há uma preocupação com a linguagem que vai além da acessibilidade por si só. “Sendo bem sincero, (há a preocupação) não só pelo humano da coisa, mas sim pela aquisição. Porque a gente sabe que quanto mais entendimento, mais lead qualificado se leva. No final, porque afeta a conversão também”, completou. A complexidade também passa pelo envolvimento com a área jurídica, para entender quais palavras e terminologias podem ser usadas, segundo Eliezer. 

  • Diversidade

Renata pontuou que temas como linguagem neutra e acessibilidade, dentro de seu ambiente de trabalho em uma consultoria, falam menos sobre Writing e mais sobre Diversidade. “Enquanto nós tivermos um universo limitado de writers, a gente está olhando para um aspecto – eu carrego minhas realidades, minhas verdades. Quando a gente olha para o banco de clientes, têm pouquíssimas pessoas racionalizando sobre Comunicação. Para a gente ter uma conversa mais profunda sobre esse assunto, essas pessoas têm que estar na mesa com a gente, não só conversando, mas criando também”, refletiu.

Ela completou que é preciso levar não só a cultura de Comunicação, mas a de inserção também. “Para a gente ter diversas realidades que trazem diversas bagagens e conseguem refletir em resultados melhores e que agreguem mais universos”, falou.

Carro com uma bagagem na capota
Tudo na bagagem – Foto: Karim Manjra / Unsplash
  • Bagagem e o fator humano

Patty mudou o viés da conversa, abordando a atualização do profissional de UX Writing, contando que ela está começando a entender assuntos relacionados à Ciência de Dados e Inteligência Artificial. Para Eliezer, todo conhecimento pode ser aproveitado. “Sou um rapaz muito inquieto, eu estudo Cinema, sou ilustrador. Humanidades como um todo, sempre tenho que dar uma lida: Antropologia, Psicologia, Economia Comportamental. Eu gosto das boas práticas, elas nos ajudam a nos dar um norte, mas nunca fui fã de só ficar só nisso porque eu sei que o ser humano é muito mais complexo”, explicou, dando conta que busca se aprimorar em dados, mas tentando sempre entender o que é o ser humano. 

Renata pediu a palavra para salientar que também costuma buscar coisas de fora do Design, procurando entender como outras instâncias estão resolvendo problemas. Ela citou um curso de Design de Calçados e um curso de interpretação para Teatro e TV. Dantas explicou que o curso de interpretação utiliza técnicas para ajudar a pessoa a desprender emoções e sentimentos, falar e verbalizar certos tipos de coisas. “Tudo isso me traz bagagem. Inclusive em pesquisa, por exemplo. Ou na hora que a gente tá tentando encontrar como trazer inovação para um produto”, afirmou.

  • Emergir nas bases do Design

Dante enfatizou que para muitos profissionais de UX Writing ainda falta emergir um pouco mais nas bases do Design e da Pesquisa. “Eu não deixaria de olhar e reforçar os conhecimentos, principalmente de UX Research. Falta muito a gente se apropriar desses conhecimentos como UX Writers, para ter autonomia para fazer uma pesquisa voltada para conteúdo. fazer um teste de cloze, um teste de entendimento de proposta, conseguir rodar um teste de usabilidade. Para que a gente entenda a compreensão dos usuários com relação a rótulos”, afirmou.

  • Coisas “guardadas no coraçãozinho”

Eliezer fez um gancho com o que Dante falou sobre as bases do Design e acabou se abrindo e dizendo que aquilo era algo que estava guardado no seu ”coraçãozinho”. “A gente pula muito as bases, temos sim que aproveitar o conhecimento que temos em outros percursos, mas tenho sentido uma certa pressa da comunidade. Pressa em estar discutindo o futuro sem de fato ter sedimentado um conhecimento base”, opinou. O UX lead do Santander disse sentir medo de que a área se feche dentro dela mesma, “sendo que estamos dentro do capítulo de Design e o próprio capítulo de Design precisa evoluir”.  

“Acabamos caindo no erro de achar que tudo é focado na escolha da melhor palavra e fazemos muito mais do que isso. Não somos um robô que seleciona palavras”, frisou.

Estrada com vários caminhos
Caminhos Múltiplos – Foto: Deva Darshan / Unsplash
  • Caminhos Múltiplos

Sobre o futuro, Dante apontou a multiplicidade de caminhos da pessoa writer citando chatbot, VUI e interfaces visuais e opinando que ainda estamos no “comecinho”. Em relação à área que ele atua, de escrita para aplicativos (interfaces visuais), ele primeiro vê uma seniorização dos times, porque, segundo ele, é um campo que ainda precisa provar o valor do Writing. “Eu vejo nessa área específica uma evolução do Writing em relação ao papel holístico, ponta a ponta”, afirmou.

  • A poderosa soft skill do Writing

Renata, fechando o debate, destacou que há uma soft skill que coloca pessoas de Comunicação em um lugar de privilégio dentro do universo do Design, podendo as levar além do Writing – até mesmo a cargos de liderança de pessoas, de projetos, de forma muito mais abrangente.

Essa soft skill, segundo ela, é a capacidade de conectar pontos, de volumes e complexidades diferentes e transformar esses pontos numa narrativa simples e fácil de ser consumida. 

“Um exemplo: eu entrei em um projeto de muita complexidade, com diversos players envolvidos, e estava tentando entender meu desempenho. Até que eu tive um estalo: por que eu, como writer/comunicadora, não pego esses pontos e entendo o que o UI tem pra me trazer, o UX, o estrategista, o cliente, o público, o contexto de mercado, o produto e faço isso tudo se unir em uma narrativa que faça sentido como entregável?”, indagou.

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